
O site Riddim.ca, do camarada Paul Autonomic, ganha o direito de reprodução dos arquivos que fizeram parte do Hyperdub.com entre 2000 e 2005. O novo espaço que é destinado à história do UK Garage – o UK Garage Archives – reúne artigos assinados por Steve Goodman (Kode 9), Kodwo Eshun entre outros.
Entrevistas com Deekline, Dizzee Rascal, Horsepower Productions, Plasticman, Wiley e outras figuras importantes também foram resgatadas. O legado é fundamental para a compreensão de diversos aspectos da cena, suas diversas mutações e hibridismos.
A iniciativa, extremamente importante, seria ainda mais completa se os arquivos de áudio também fossem trazidos à tona, para ilustrar os pensamentos incríveis concebidos pelos seus personagens – idéia que Paul não descarta, porém ainda sem previsão para rolar. Em entrevista ao Tranquera, Paul fala sobre os arquivos do Hyperdub.com, seus conceitos mais interessantes e o futuro da cena.
O que exatamente fez você resgatar os arquivos do Hyperdub?
Existem algumas razões. A mais simples é que se trata da melhor coleção de textos sobre UK Garage que existe por aí e seria prejudicial não torná-la acessível. Fiquei bem contente quando o Steve concordou em deixar o arquivo hospedado. É uma coleção importante, tanto como material histórico como local onde pessoas experimentaram escrever e falar sobre música. Existem lá muitos artigos interessantes. A coleção é grande. O documento tem mais de 100 páginas.
Para mim, os artigos e entrevistas foram muito importantes porque comecei pesquisar Dubstep, Grime e UK Garage só algum tempo atrás. Como você sabe, é bem difícil achar coisas sobre pequenas cenas locais. Agora a internet é o jeito de saber o que rola nas noites, embora você não esteja cara-a-cara na festa. Cheguei pelo Hip Hop, quando era mais jovem, bem antes da internet, e dedicava horas pesquisando, aprendendo com a história da cena. Acho importante saber de onde as coisas vêm quando você chega de fora. O Dubstep atraiu muita gente no ano passado e muitas pessoas estão tentando a sorte com isso mas poucos estão procurando aprender como ele se desenvolveu, quais são suas raízes. Isso pode ser ouvido na música que está sendo lançada nesses últimos meses. Então, nesse sentido, acho que o arquivo do Hyperdub é uma boa companhia à recente compilação Roots Of Dubstep da Ammunition.
Você acha que alguns conceitos e idéias desenvolvidos e escritos por pessoas como Kodwo Eshun estão presentes hoje no som inglês atual, como o Dubstep?
Definitivamente. E hoje, uma coisa que me irrita, é essa idéia reacionária de que pensar muito sobre música causa algum dano ou que seja elitista. Muitas idéias que rolam na produção musical – como criar o som, o que ele representa, como ele se conecta com o passado e o futuro, o que ele faz ao corpo – merecem ser consideradas. Elas geram suas próprias teorias, então porque não se envolver com isso?
Por exemplo, o Eshun descreve estilos diferentes de música dançante como “máquinas de ritmo” – máquinas abstratas, onde a tecnologia do som, a cultura e o corpo se unem para gerar um efeito particular, “abduzindo” quem dança ou ouve para o que o Erik Davis chama de “ciberespaço acústico”. Com essas conexões, podemos falar da relação entre música e ficção científica, cibernética, fisiologia, tecnologia digital, espaço, mitologia etc. O Steve Goodman chama as cenas que se organizam ao redor das “máquinas de ritmo” de “tribos de velocidade”, que acho uma boa maneira de descrever como grupos de pessoas seguem tipos particulares de experiências sônicas – ritmos, texturas, freqüências, tempo – e distinguem sua cena das outras. Esses termos são bem úteis, por exemplo, no caso dos fãs de Drum’n'bass, que descobrem o Dubstep e nem sempre entendem que o lance é mais do que desacelerar ou falar sobre a ausência de batidas. O Dubstep é uma máquina diferente. Seguindo essa lógica, você pode dizer que ele veio do Garage. Historicamente, o Garage emerge como uma alternativa ao Drum’n'bass e, com um pouco mais de pesquisa, você descobre porque essa tribo dissidente queria construir uma nova máquina em primeira instância. Então você observa o sistema operacional da máquina do Garage, enxerga como ela funciona e começa a fuçar nela, procurando plugar ali outras coisas. O crucial é não deixar a máquina quebrar durante o processo, perdendo sua intenção ou potencial. Exatamente agora temos inércia em abundância.
Como você vê a cena global hoje?
Está ficando cada vez mais difícil acompanhar novos talentos e eventos, já que eles estão pipocando, literalmente, em todo lugar. Para ser sincero, sinto uma ambivalência. Por um lado fico espantado com a quantidade de interesse vindo de todos os cantos do mundo. Lembro que você podia contar com a participação internacional em três mãos e dificilmente alguém queria saber de Dubstep. Mas o controle de qualidade foi um grande problema no ano passado. Há esse paradoxo entre expansão e contração, em termos de presença global versus criatividade. Está em andamento, mas não é mais mutante como antes. Ou não tanto quanto gostaria que fosse. Podem questionar o elitismo da cultura do dubplate mas também pode-se considerar que a “democratização” via MP3s e CDRs tem potencial para causar uma entropia criativa. Só porque você tem algo exclusivo não significa que isso seja genial. Soa realmente pessimista. Existem muitos problemas, mas ainda há muito potencial em Londres e ao redor do mundo.
O que podemos esperar para 2007? Alguma coisa relacionada ao que os arquivos do Hyperdub preveram?
A previsão é um crescimento constante. Estou aguardando o primeiro hit Pop. Aposto em “Give It Back” do D1. Você pode ter um clip de “relacionamento turbulento” para ela. Sinceramente, ainda olho para o DMZ e o Hyperdub para ver o que o futuro nos guarda. Acho que eles estão em outro nível. Estou curioso para saber onde o Skream vai parar a partir de agora, porque ele parece diante de algo grande. Depois tem o Shackleton, que continua crescendo e tem a cena Minimal Techno interessada nele. Pode, também, ser um caminho para o Pinch. Vou ficar de olho e espero que alguém venha com algo completamente surpreendente. Burial foi a melhor surpresa de 2006. Torço para que o Grime tenha um ano melhor e que as cenas se aproximem novamente. E, finalmente, estou tocando agora, então quero ver como as pessoas reagem às músicas, tanto as novas como as antigas.
Não poderia esquecer um dos primeiros artigos do arquivo Hyperdub chamado “A Assombração do UK Garage”. Quão divinatório não é aquilo? Parece que o ano passado foi assombrado por memórias, futuros perdidos e retrospectivas. Espero que alguns desses “achados e perdidos” tragam algo legal para todos nós.
Estava pensando nessa questão e acho que deixei algumas pessoas de fora. Tenho de dizer que o pessoal de Bristol está produzindo muita coisa bacana, como Pinch e Monkeysteak. Os novos trabalhos do Peverelist são incríveis. Nos EUA estou interessado no que o Dev79 e o Starkey estão fazendo. As produções do Dusk e do Blackdown estão pegando pesado. Tem o The Bug com a participação da Warrior Queen. E, depois, tem você. Fiquei impressionado com o EP e gostaria de ouvir mais Dubstep do Brasil.
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