Festival de Viena, Parte I

Published
18.07.07

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Tranquera.org

Por Bruno Belluomini
Colaborou Natalie Valili

No começo do ano, recebi uma mensagem do camarada Hans Kulisch através do Dubstepforum.com. O convite era para participar de um evento em Viena, Áustria, onde o principal objetivo seria comemorar o Dubstep de uma forma bem abrangente. O interesse pelo nosso trabalho rolou por conta da essência do projeto, que deveria ser o mais cosmopolita e representativo possível. Os caras de Londres e alguns dos “embaixadores” do gênero de outros países estariam lá. O festival teria noites em clubs locais, chill out com palestras e exibição de documentários.

No meio do caminho tivemos de tirar passaporte, cortar dubplates e avisar todo mundo sobre o festival. Nessa altura do campeonato a coisa toda já tinha nome: Into The City, braço sonoro mais contemporâneo do Festival de Viena, que iria celebrar a cultura globalizada do subgrave em quatro datas distintas. Os flyers já tinham sido rodados, os cartazes espalhados e as revistas já traziam o programa completo em suas páginas.

Em maio, Kode 9 e Ekaros deram o pontapé inicial. Imagino que deve ter sido imperdível, pois, em São Paulo, pudemos conferir o live do Kode 9, puro grave, muito denso. O Ekaros também não deve ter sido brincadeira. O som do cara é pura tensão, muito sinistro e excitante. O convite era referente ao primeiro dia de junho, cujo line-up trazia nomes que admiro muito: Appleblim do Skull Disco, Boxcutter do Planet Mu, Peverelist do Punch Drunk, Pinch do Tectonic, Bunzero da Bélgica, Tes La Rok da Finlândia e os alemães do Freakcamp. Na seqüência, seriam só os medalhões da cena: Benga, Hatcha, Loefah, Milanese e N-Type. O Chef também deveria tocar mas, como havia perdido seu passaporte, não foi possível comparecer. Para finalizar o evento, Boomnoise e Dubway, moderadores do Dubstepforum.com, tocaram após uma rodada de palestras e em seguida ocorreu a exibição do documentário Living Inside The Speaker, sobre a cena de Bristol.

Três coisas foram bem marcantes: o Museums Quartier, aglomerado de museus com estúdios e ateliês de artistas residentes, a Dynamic Records, loja de vinil numa travessa da Mariahilfestrasse e o café restaurante Raymond. No Museums Quartier fica o quartel general da Play.fm, com lounge para pequenas apresentações e equipamentos para transmissão de sets ao vivo. Na Dynamic Records, a banca de Dubstep era grande, embora o forte fossem todas as vertentes de Drum’n'bass, com destaque para as pilhas de 7″ de Reggae e vários títulos de Ragga Jungle. Já no café restaurante Raymond, o melhor prato de todos os tempos: fettucini com molho branco e fungi, depois strudel de maçã na sobremesa.

Quando chegou a noite de sexta-feira, pegamos o case e fomos à pé para o club, que ficava a poucas quadras do hotel, na mesma rua. O vento batia gelado e chegou a chover. Mas logo estávamos no The Zoo, club escolhido para sediar o treme terra. Havia um backstage para os convidados, cheio de petiscos, bebidas e muitos sofás. Parece frescura mas não é: no backstage os jornalistas conseguem fazer a entrevista sem o barulho da pista e é possível descansar um pouco se o line-up fica muito extenso. Lá o espaço é amplo. São duas pistas de mesmo tamanho, uma no térreo e outra no subsolo, ambas com bar e sound system de primeira. As caixas de subgrave estavam bem calculadas e o som estava batendo legal, de modo que você podia sentir o grave bombando no peito com a maior pressão. Em alguns momentos a cabeça tremia e fazia perder o equilíbrio. Era pura diversão, com público bem misto em todos os sentidos. As meninas dançavam, os meninos bebiam e o clima era de festa das boas a noite toda.

Ficamos dançando durante o set dos alemães do Freakcamp, eles tocaram com Serato – uma espécie de tocador de MP3 para toca-discos. Enquanto isso, a VJ Letitia Fox projetava desenhos animados antigos, sincronizando o movimento dos personagens com as batidas das músicas. Deu tempo de tomar um suco antes de subir no palco.

Abri o set com uma faixa do Luiz Gonzaga, mixada na seqüência com um DMZ do Loefah. Foi legal lançar um forrozão no meio do eletrônico e o público respondeu bem. Consegui tocar os dubplates cortados especialmente para a festa e fui subindo a seleção com coisas mais uptempo: Benga, Horsepower, Kromestar, MRK1, Skream e Toastyboy. Fiquei bem feliz quando o Appleblim disse que tinha curtido o mix, tanto a seleção quanto a técnica. Não se trata de competição e é sempre bom ouvir um elogio, principalmente vindo de pessoas que a gente admira bastante.

Com “Vansan”, uma das últimas faixas lançadas pelo Skull Disco, Appleblim subiu no palco e dividiu o set com Peverelist, do Punch Drunk. A seleção foi bem Dub Techno, com toques de Minimal, mas tudo dentro do universo fraturado do 2-Step e do UK Garage. Depois veio o Pinch, com dubplates do 2562, um dos nomes mais comentados do momento. Boxcutter fez bonito, tocou um baixo elétrico e usou MIDI, tudo conectado ao laptop. O live tinha samples do seu álbum debut, pelo Planet Mu. No começo as pessoas ficaram meio paradas, mas não deixaram a pista. Quando os breaks começaram chicotear, ninguém ficou parado. Talvez o maior desafio para os produtores de IDM seja encarar a pista, um beco sem saída cruel. Mas, o público estava bem informado e sabia o que iria encontrar pela frente.

Festival de Viena, Parte II

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