Chico Dub


Published
21.11.07
Permalink

No Comments
Comment




Tranquera.org

O carioca Chico Dub é um profundo conhecedor da música jamaicana. Sua recheada coluna Jamaica Hi-Fi, publicada no Radiola Urbana, é um prato cheio para quem têm interesse sobre o assunto. Seu blog, o Dub.blogger.com.br, também é repleto de informações e referências fundamentais.

Agora, sua contribuição para o entendimento do tema ganha uma relevância ainda maior e pode ser conferida no CPH:DOX, importante festival internacional de documentários sediado na Dinamarca. Ele é co-produtor do Dub Echoes, dirigido por Bruno Natal. O trabalho visa mostrar como o Dub influenciou – e continua influenciando – a música eletrônica contemporânea. Para isso, sua pesquisa conta com depoimentos de gente como Congo Natty, Howie B, Dub Pistols, Kode 9, LTJ Bukem, Peter Kruder, Lee Scratch Perry, Mad Professor, Scientist e Sly & Robbie.

O remix surgiu na Jamaica por volta de 1967

Qual a contribuição da música popular jamaicana para o “remix”?

O que conhecemos hoje como remix originou-se na Jamaica, por volta de 1967, batizado de “version”. Até 1969, essas versões eram simplesmente formadas pela canção original – sem o vocal – com instrumentações adicionais de sax, trombone e guitarra dos clássicos de Rocksteady que dominavam os dancehalls. A coisa começa a mudar de figura quando os toasts dos DJs – os MCs jamaicanos – passam a ser gravados em disco.

É importante citar que o DJ sempre existiu nos sound systems jamaicanos, mas é a partir das primeiras gravações do U-Roy mixadas pelo King Tubby que a categoria começa a se destacar e vira arte. Tubby manipulava a versão original retirando os excessos e deixando espaços para U-Roy cantar por cima da base, interagindo com a letra da fonte original.

Em paralelo, as versões instrumentais citadas acima vão se tornando mutantes, parecendo cada vez menos com suas matrizes. Toneladas de efeitos são adicionados, pedaços de músicas são recortados e colados em outras – alguém aí pensou em mashup? O engenheiro de som se torna artista e o instrumento usado é o próprio estúdio. A partir daí, em 1972, surge o Dub, versão totalmente minimalista que prioriza a essência da música jamaicana – o baixo e a bateria.

A música jamaicana é uma das mais comerciais do mundo. Nada que não dê certo nos dancehalls e sound systems consegue sobreviver por muito tempo. Essas versões caíram no paladar do povo porque mostravam sucessos conhecidos em outras roupagens. O povo jamaicano sempre aprendeu a lidar com o pouco que tinha. Nada é jogado fora. De uma certa maneira, o que esses pioneiros fizeram não foi nada além do que já estava imbuído no sangue. Reciclagem.

O uso do dubplate começou nos anos 50

Muitas pessoas do meio eletrônico, principalmente da cena Drum’n'bass e mais recentemente do Dubstep, ainda hoje discutem sobre o caráter exclusivo do “dubplate”. Isso tem origem na Jamaica? Como isso aconteceu?

O uso de dubplates inicia-se na Jamaica, nos anos 50. Ou seja, o termo “dubplate” – ou “special” – surge antes mesmo do nascimento do Ska, o primeiro gênero musical popular jamaicano. A busca a todo custo pela exclusividade sempre foi uma marca registrada entre os sound systems.

Quando o som da vez ainda era o R&B americano, principalmente o Boogie Woogie sulista, os selectors dos sound systems arranhavam o número de matriz dos discos para ninguém saber o que estava tocando e assim conseguir uma cópia igual. A medida que esses discos vão desaparecendo com o surgimento do Rock’n'roll, os donos dos sound systems começam a prestar atenção nos cantores locais. É através dos dubplates que eles testavam a receptividade do público.

Os riddims eram regravados exaustivamente

A reutilização de trechos pré-gravados, os “samples”, tem sido amplamente empregado pelos artistas e produtores jamaicanos para dar vida à novas faixas, versões, etc. Desde quando isso ocorre? Qual o motivo disso acontecer? É um uso puramente artístico ou também algo cultural, influenciado pela realidade econômica que persiste na Jamaica?

Se uma música fez sucesso na Jamaica é certo que seu “riddim” ou base – baixo, bateria e melodia do naipe de metais ou órgão – vai ser retrabalhado por outro produtor. Até o início dos anos 90, o controle dos direitos autorais de uma gravação na Jamaica ficava nas mãos de quem bancou a sessão – o produtor. Ele ficava com os direitos sobre aquele fonograma em particular, mas não sobre seu conteúdo. Isso, aliado ao fato de que é economicamente seguro apostar em algo já devidamente testado, fez com que riddims consagrados passassem a ser regravados exaustivamente por outros produtores.

É impressionante a quantidade de vezes que um riddim como “Real Rock” foi retrabalhado desde sua origem, em 1967, com o grupo Sound Dimension. São mais de duas mil vezes reutilizando a mesma base. Na internet, existem vários bancos de dados onde é possível checar o DNA desses riddims.

O Reino Unido e a difusão da música jamaicana

Qual a importância da internet para difusão da música popular jamaicana pelo mundo? A Inglaterra desempenhou um papel importante nesse processo?

A explosão do Reggae no mundo se dá através do Bob Marley. Só que via Inglaterra. Os ingleses sempre foram consumidores de música jamaicana. Mas é com a entrada da Island, a partir de 1973, que o negócio fica realmente sério. Bob Marley – e nenhum outro artista do Reggae – não aconteceria em escala mundial sem a exposição promovida pela Inglaterra. Porém, depois que ele se torna o embaixador do Reggae e, em 1981, morre, a percepção mundial do que é música jamaicana se congela. Uma coisa é um artista se tornar símbolo de um gênero. Outra totalmente diferente é ele se tornar o próprio gênero.

A importância da internet está justamente no fato de mostrar que existe todo um universo além de Marley. A web proporcionou uma segunda explosão do Reggae, felizmente uma explosão muito rica, com artistas fazendo som de tudo quanto é tipo. Hoje, a música jamaicana já faz parte do pop mundial.

Veja a Lilly Allen, por exemplo. Ao mesmo tempo, toda nova cena underground urbana traz algum elemento do Reggae, mesmo que escondido, dentro da sua gênese. Vida longa ao grave.

A origem da cultura do sound system nos anos 40

A cultura do DJ, do vinil e das pessoas dançando ao redor do sistema de som pode ser vista hoje reproduzida, de uma forma ou de outra, dentro dos clubs. A Jamaica também pode ser considerada o berço disso tudo?

Toda a cultura da música jamaicana é construída em torno do sound system, o rádio do povo: um sistema de som de proporções inimagináveis, tocando música mecânica, com um cara escolhendo os discos e outro animando o público e anunciando os patrocinadores.

A origem do sound system nos anos 40 é puramente mercadológica. Nos bares, gramofones e caixas de som tocavam os últimos lançamentos de R&B, Jazz e Mento em direção às ruas, chamando o povo para consumir bebidas alcoólicas. Dez anos depois, o sound system se transformou no coração da comunidade, tocando para cinco mil pessoas por mais de 12 horas ao ar livre.

Essa cultura do “DJ superstar” dos dias de hoje começa na Jamaica, nos anos 50. Os caras tinham uma importância maior que a dos próprios governantes nos guetos da zona oeste de Kingston. Davam ajuda financeira, conselhos, tiravam quem eles queriam das cadeias. O sound system na Jamaica perpassa a idéia de um bando de gente dançando e se divertindo. Ele foi a primeira manifestação de massa num país colonizado por 400 anos, com quase 300 só de escravidão.

Como no futebol, cada jamaicano tem seu sound system do coração, seguindo todos seus passos e torcendo contra seus adversários nos soundclashes. E no topo disso tudo está o DJ e seus disquinhos de vinil.

Tags:
Share this
No Comments
Leave a Reply


Comments are moderated. Please no link dropping, no keywords or domains as names. Do not spam, and do not advertise.

Copyleft 2005-2011
Licensed under a Creative Commons license
This site is better visualized with Mozilla Firefox