
Bass & Treble, famoso pelas suas mixtapes de Dub Techno por aí, serve o Tranquera com um mix exclusivo. “Dizer que essa seleção foi feita em cima de um gênero específico seria chover no molhado, mas ao mesmo tempo o mix inclui faixas e produtores que normalmente não seriam associados a esse rótulo”, explica.
Confira o bate papo com esse ávido colecionador de discos e consumidor voraz de vinil. A crise da indústria fonográfica atual, a noite em São Paulo e até a questão da remuneração dos DJs são assuntos que estão em pauta.
Como você classifica o tipo de som que escolheu para seleção?
Nunca me preocupei em classificar o tipo de som que toco. Para mim é a maior dificuldade quando me perguntam qual estilo toco. No fundo sou muito eclético, um comprador e colecionador de discos compulsivo. Achei a música boa, estou comprando, sem me prender a rótulos. Posso eventualmente tocar desde Dub Techno, até B12, Funki Porcini, Fila Brazillia, passando por House, Electro, Techno e vários subgêneros intermediários.
Dizer que essa seleção foi feita em cima de um gênero específico – que é o Dub Techno – seria chover no molhado, mas ao mesmo tempo o mix inclui faixas e produtores que normalmente não seriam associados a esse rótulo como Soylent Green (Roman Flügel), The Third Man (Toby Leeming) ou The Black Dog. Costumo chamar essa linha de Bass Music. Não Bassline, que é um subgênero bem mais acelerado, mas simplesmente Bass. Todas as faixas escolhidas têm em comum uma linha de baixo forte e marcante, uma das características que mais aprecio numa produção.
Qual critério você usou para escolher o conteúdo da seleção?
Minha idéia foi fazer uma seleção bem abrangente dentro do Dub Techno e ao mesmo tempo buscar faixas não muito óbvias. Procurei incluir algumas faixas menos tocadas e alguns “b-sides” de produtores já consagrados, acrescentando outros produtores mais obscuros ou que somente agora começam a ser mais conhecidos como Ruoho Rotsi, Mikkel Metal e Marko Fürstenberg.
Está bem clara também a divisão do set em duas partes de duração mais ou menos igual: na primeira parte predominam as faixas mais relaxadas e menos percussivas, com um ou outro vocal ocasional, enquanto que no segundo os beats são mais marcados e em geral obedecendo o tempo 4×4, com exceção da faixa “Mr. Burroughs To The Curiosity Phone, Please”, que dá uma quebrada na sequência.
Como você gravou a seleção?
Para gravar o set usei duas Technics, um mixer Pioneer DJM 600 e um gravador digital chamado iKey Audio, bastante prático por gravar direto em qualquer pendrive, MP3 player ou iPod, com controle do volume de gravação e opção de gravação em WAV ou MP3 com diferentes bitrates.
Você prefere tocar vinil? Faz uso de outro tipo de mídia?
Não só prefiro tocar com vinil como quase não possuo material em outra mídia. Parei de comprar CDs por volta de 2001 por várias razões. Em primeiro lugar por ser o CD uma mídia muito pouco confiável, sujeita a riscos, arranhões, oxidação da camada gravável e outros problemas. Além disso a facilidade de obter virtualmente qualquer música através da internet tornou o CD obsoleto, ao menos como mídia para distribuir e comprar música. Na minha opinião, nesses dois pontos reside a maior razão da crise da indústria fonográfica mainstream, que pagou caro por impor o CD goela abaixo do consumidor. Isso para não falar dos problemas com a qualidade do som. Por tudo isso acho que para o colecionador, principalmente, não há sentido em comprar CD, nem muito menos arquivos digitais.
Quem quer possuir fisicamente uma música, seja para investir, seja pelo tesão de “ter” mesmo, só pode pensar racionalmente no vinil. Já a mídia eletrônica é excelente opção para audição e é para isso que uso: para ouvir no carro, em casa ou transportar em pendrives. Além disso, o tesão de tocar com vinil não tem igual, o contato físico e a manipulação real da mídia é outra história. Por isso também prefiro o vinil. Costumo usar também, em minhas apresentações ao vivo, uma ou duas Buddha Machines para gerar efeitos.
Quando você começou se envolver com esse tipo de som?
Meu envolvimento com o Dub começou cedo. Nos anos 80, já era fã de Lee Perry e companhia. Lembro de ouvir todo dia, durante meses a fio, a obra-prima Time Boom x De Devil Dead. Já a música eletrônica sempre fez minha cabeça, mas cheguei a ela por intermédio do Krautrock, tipo Kraftwerk, Neu!, Triumvirat. Somente nos meados dos anos 90 é que fui conhecer a fundo a House Music e o Techno. Como muitos ainda hoje, achava que era uma coisa vazia, comercial, talvez influenciado pelo pouco que se ouvia no rádio então e mesmo hoje em dia, que é essa dance music comercial. Só depois de ser apresentado ao som de Detroit e conhecer a explosão do Acid House é que comecei a levar essas vertentes a sério. Aí fui fundo e não perdi tempo, passei a ser um consumidor voraz e comprava tudo que podia: de French House a Garage inglês, de Armand Van Helden a Orbital, Minimal, Hard Techno e Hardcore, Jungle e tudo mais que aparecia pela frente, inclusive o comecinho do Trance. Foi nessa época que conheci o som da turma do Basic Channel, mas pouca coisa.
Logo fui me ligando muito nas produções mais cabeçudas, coisas que saíram em especial nos selos Ninja Tune, Soma e Warp. O som do pessoal de Sheffield, aliás, até hoje para mim é referência: LFO, The Black Dog, Plaid, B12, essas coisas. O Dub Techno acabou vindo bem mais tarde e para mim foi uma revelação. Há alguns anos atrás, costumava tocar toda quinta-feira à noite no Tostex com o George Actv. A proposta era fazer um som mais voltado para o Ambient, o Minimal e a gente trocava muita figurinha. Um dia me lembro que o George me perguntou se gostava de Maurizio e disse que não conhecia muito bem. Na semana seguinte ele chegou com uns seis ou sete discos, incluindo vários da série M, o Phylyps Trak II, Quadrant e outros. Tocamos aquilo a noite inteira. Aquele som limpo, quase sem melodia, puro e hipnótico, acabou entrando de vez na minha vida para não sair mais. Depois disso comecei a me interessar pelas produções mais recentes do estilo, principalmente Rhythm & Sound, Echospace e Substance & Vainqueur. Comecei a pesquisar outros produtores mais recentes e hoje virou essa paixão.
Qual sua opinião sobre o circuito de música eletrônica em São Paulo hoje? Você gosta das opções que são ofertadas? Por quê?
Meter o pau é muito fácil. Hoje em dia virou chavão falar mal da noite paulistana, principalmente, dizer que não acontece nada de novo e tal. Discordo totalmente. Hoje São Paulo está definitivamente no circuito da música eletrônica mundial e tem sempre uma apresentação de qualidade, uma gig bacana para se ver. É bem verdade que tudo isso se resume a três ou quatro clubes basicamente, mas não dá para reclamar. Acho que o maior problema está justamente na falta de espaço para os DJs nacionais. Enquanto os tops estão há dez, vinte anos no mercado, os que apareceram depois têm muito poucas oportunidades.
Sem querer generalizar, mas tirando esses três ou quatro clubes mais importantes, a maioria dos donos de clubes e bares não respeita o DJ e é comum o cara tocar por uma ninharia, mesmo quando a casa arrecada uma puta grana de entrada, que no fundo deveria reverter integralmente para os DJs que se apresentam naquele dia. Outro problema é que as opções nos clubes maiores não são muito variadas, em geral você tem muitas opções dentro da música eletrônica mais mainstream, enquanto que outros nichos tem pouquíssimas opções.
Quais locais em São Paulo é possível ouvir e curtir o tipo de som que você aprecia? Alguma festa ou DJ específico?
Nos tempos do Susi em Transe, houve uma época em que as sextas-feiras eram voltadas para o Dub, mas desde então não há mais uma noite fixa dessa em São Paulo. Acho que uma noite para se ouvir Dub ou Dub Techno faz muita falta. Quem gosta de Ambient só ouve esse tipo de som em casa ou nos Chill Outs das festas maiores, geralmente num sound system de merda. Por que não uma noite de Ambient num restaurante bacana, num barzinho descolado? Não dá para entender, porque teria tudo para dar certo. Uma das boas novas é a iniciativa de trazer o Dubstep para o público paulistano, que aliás conhece muito pouco esse gênero. Faço votos que a noite continue firme pois já é um dos baluartes dos amantes dos estilos mais alternativos.
Dentro do som mais mainstream tem muita coisa acontecendo, vários núcleos interessantes, DJs fantásticos surgindo, como o Paulo Tessuto, que é super jovem e adoro, bem como algumas festas com conceitos legais, como a Hi-Tech Jazz e a Art & Soul, festas que acontecem no Bar 8. Outra coisa que lamento é a falta de espaço nos grandes festivais para os produtores mais alternativos. Antigamente havia no Free Jazz e até no Tim espaço para um Aphex Twin, por exemplo, mas hoje em dia só apostam em coisas já consagradas e atrações de massa, o que é lamentável.
Fale um pouco sobre você, sua relação com a cena.
Sou antes de tudo um colecionador de discos, bem como um freqüentador da noite que adora ouvir música boa e dançar. Quando vou para um clube geralmente vou direto para pista e dali só saio quando acaba a festa. Eventualmente toco em uma ou outra noite, quando convidado, mas discotecar surgiu na minha vida como um hobby e um complemento à atividade de colecionador de vinil.
Desde muito cedo freqüentei a noite paulistana, curti a Disco Music no começo da adolescência, vi a música eletrônica crescer e frutificar em São Paulo e no Brasil, desde as primeiras raves para algumas poucas centenas de amigos até os mega eventos e grandes festivais de hoje. Freqüentei quase todos os clubes e festas da cidade e em quase todos os nichos da música eletrônica tenho bons amigos que são donos de clubes, DJs, produtores, promoters e divulgadores mas a minha praia mesmo é curtir e tocar para os amigos. Como se dizia há dez anos atrás: PLUR! Peace, liberty, unity, respect!
Bass & Treble Tranquera Mixtape
01. Echospace “First Point Of Aries” Modern Love
02. Atheus “Unendlich” Styrax
03. Andy Stott “Unknown Exception” Modern Love
04. Echospace “Sonorous (Version)” Fortune
05. Mikkel Metal “Dromos” Echocord
06. Paul St. Hilaire “Jeman” Echocord
07. The Third Man “A14 (Eastbound)” Ai
08. Rhythm & Sound “King Version” Burial Mix
09. Claro Intelecto “Gone To The Dogs” Modern Love
10. Marko Fürstenberg “Eigenleben” Ornaments
11. Ruoho Rotsi “Centerpiece Of Ass” Skor
12. The Black Dog “Mr. Burroughs To The Curiosity Phone, Please” Dust Science
13. Andy Stott “Fine Metallic Dollar” Modern Love
14. Mikkel Metal “RMX EP Vol. 3 Track B1 (Dub Surgeon Rmx)” Echocord
15. Maurizio “M7 Track 1A 9″ Maurizio
16. Soylent Green “Low Pt. 1″ Playhouse
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