
Byte é um DJ que valoriza o vinil e investe no seu acervo musical, adquirindo discos que fizeram sucesso no passado mas que ainda surpreendem muita gente hoje. Sua maior paixão é o Hardcore e o Jungle, gêneros muito populares e prolíficos no Reino Unido durante as décadas de 80 e 90.
Conheça um pouco mais o que pensa esse jovem DJ e ouça o mix exclusivo que ele preparou para o Tranquera.
Na sua opinião, como é a situação atual do circuito underground em São Paulo? Você se sente satisfeito como DJ? E como público?
Se me sinto satisfeito como DJ? Sim e não. Sim porque adquiri meu espaço, é um espaço pequeno, mas maior do que esperava tocando o estilo que toco. Existe um retorno bastante considerável do público quando ouvem o que toco, sendo a música conhecida ou não. O lado insatisfatório é o retorno financeiro. O investimento é maior que esse retorno. Acaba se tornando quase inviável, se não fosse a paixão pelo que faço. Como público estou insatisfeito pelo fato de não poder estar presente nas melhores festas que acontecem durante a semana. Minha vida social não me permite estar presente nesses eventos. No final de semana, as poucas festas que tenho ido não têm me agradado.
Agora a situação do circuito underground em São Paulo é bem relativa. Se falarmos de DJs, existem caras super competentes e de muito talento trabalhando sério, levando a informação para o público interessado, levantando sua bandeira e fazendo sua parte, independente dos resultados. Acho que existem ótimos DJs dentro desse circuito. Talvez os melhores de São Paulo. Se falarmos de eventos, existem diversos núcleos com potencial mas que trabalham de forma independente, cada um com seu público que as vezes é pequeno ou com uma boa quantidade de pessoas, porém cada um trabalhando de forma distinta, talvez dentro de um mesmo universo musical, mas de forma individualista. Isso gera um desencontro de artistas, de promoters, de DJs que talvez juntos poderiam fazer algo mais forte e consistente e conseqüentemente duradouro.
O que é preciso fazer para melhorar essa situação? Você consegue imaginar uma solução? Tem alguma sugestão?
Bem, penso que ninguém chega a lugar nenhum sozinho. A partir deste ponto de vista, se houver uma junção ou compartilhamento de idéias, opiniões e atitudes, enfim, se houver a tão falada “união”, dá para se fazer algo forte. Sabe, não custa um núcleo falar de outro núcleo em seu site, blog. Trocarem informações sobre datas, eventos, artistas internacionais que estão por vir, ou até mesmo se juntarem para trazer um artista que ambos gostariam de trazer. Esquecer um pouco o individualismo e pensar no conjunto.
Está todo mundo no mesmo barco, mas as pessoas se esquecem disso. Da mesma forma os DJs. Pensar mais na música, deixar de olhar um pouco para si próprio. Tiro como exemplo grandes núcleos gringos. Os caras não fazem na base do cada um por si. Claro que existe a rivalidade em todo lugar, mas eles agem com profissionalismo. Outro ponto extremamente importante, na minha opinião, é uma postura mais profissional por parte de cada DJ, promoter, organizador, etc. Isso já daria um grande salto para frente. Resumiria tudo isso em três palavras: união, respeito e profissionalismo.
Você acha que DJs devem receber cachê? Mesmo em festas pequenas ou promovidas por amigos? Qual sua opinião?
Sem dúvida nenhuma. Qualquer pessoa que presta serviço, que tem custos para gerar esse serviço, merece uma compensação. Aí volto no lance do profissionalismo. Independente do tamanho da festa ou quem a promove, o DJ deve ser pago. Os valores podem ser negociados, é claro, dentro das condições de quem contrata e vai do DJ aceitar essas condições ou não. Não adianta as pessoas reclamarem de condições se elas mesmas não colaboram para que esse mercado gere tais condições.
Tenho consciência de que dentro da nossa realidade isso não é nada fácil, tanto para quem já tem uma bagagem em fazer eventos como para quem está começando. Mas esse nosso universo musical, falando da parte financeira, é bastante comparável a qualquer outra empresa: você não pode contratar um funcionário se não pode pagar. Se você não paga, como ele pode produzir? E se o DJ trabalha de graça, ele está colaborando com essa decadência, pois está agindo de forma amadora, tirando o espaço de outro DJ que realmente se dá valor. Isso acaba viciando os contratadores que sabem que “sempre haverá alguém que toque de graça”. Aí a qualidade de tudo cai, tanto de festas como de música e a gente pára onde estamos hoje.
Por que você toca esse tipo de som? Alguma razão em especial? Quais outros DJs tocam o mesmo som que você?
Olha, tenho diversos motivos para tocar o que toco. Mas o principal motivo hoje é pela riqueza que existe dentro do universo Oldschool das batidas quebradas, seja ela Jungle, Hardcore, Trip Hop, Funk, Breakbeat, etc. Quando se fala em Jungle aqui em São Paulo as pessoas se lembram apenas dos hits mas esse estilo é muito mais amplo do que eu mesmo imaginava. Estou periodicamente comprando “novos” discos de 1992 a 1995, coisas que nunca ouvi e nem imaginava que existiam. O mais surpreendente é que essas coisas são de qualidade absurdamente boa, produções de muito bom gosto, coisas que toco hoje e as pessoas perguntam se é novo. São músicas tão boas que se tornam atemporais, perdem a cara de “velha” e não são descartáveis como muita coisa que ouvimos hoje.
É um universo amplo e pouco explorado aqui no Brasil. Tem pessoas que pensam que fiquei preso no tempo e sou nostálgico mas não é nada disso. É uma escolha minha, tocar algo que acredito ser realmente bom. Além de tudo são pouquíssimos DJs que se dedicam a esse estilo aqui e se ninguém toca, ninguém conhece. Assim como o Funk e Soul dos 70s, o Hardcore e o Jungle são a raiz do que se produz hoje no universo do Drum’n'bass. De certa forma é a preservação da cultura junglist. Existem outros DJs que tocam estes sons e derivados. Dentro do Oldschool, além de mim tem o Davi, que acredito ser o mais competente e bem informado. O Andy, como todo mundo já sabe, mescla em seus sets alguns hinos do Jungle e também realiza a Back To The Dates, evento onde ele toca bastante Oldschool. Sei que em Brasília tem o Weirdo, que toca Nu Jungle e mescla Oldschool também. Ouvi dois sets dele e apreciei a técnica e o repertorio. O Avontz daqui de São Paulo toca Ragga e Nu Jungle, o Transdutor que além de tocar também produz, o pessoal da Temp e Pankadão tocam Breakcore, que não deixa de estar super amarrado com o Jungle. Tem uma galerinha legal que toca os amen breaks.
Mais alguma coisa?
Obrigado por conceder esse espaço, parabéns pelo excelente trabalho que você tem feito no Dubstep e se manter firme com um estilo de música tão alternativo.
DJ Byte Breaks the Unbreakable Volume 2 Tranquera Mixtape
01. Kid Twists & DJ Phantasy “Do Or Die” Spooky Toons (1992)
02. Liquid Aliens “Volume 1″ Liquid Wax (1993)
03. DJ SS “The Pulse (Darkside Remix)” Formation (1993)
04. DJ Hype “Weird Energy” Suburban Base (1993)
05. The Criminal Minds x D.O.T. “Drums Of Doom” Labello Blanco (1993)
06. Skanna “Night Stalker B2″ Skanna (1993)
07. DJ Hype “Shot In The Dark” Suburban Base (1993)
08. Warped Kore “The Power” White House (1993)
09. Bounty Killaz “Silent Voices” Creative Wax (1993)
10. Defender “Feel It” Gyroscope (1993)
11. Wax Doctor & Jack Smooth “Unfriendly” Basement (1993)
12. Skanna “Night Stalker A2″ Skanna (1993)
13. Unknow Artist “White Label” Blueprint (1993)
14. International Rude Boyz “Drum Programme Remix” Formation (1993)
15. The Full SP “Raw Basics (Tango Remix)” Face (1994)


21.02.11
Versão editada em vídeo com os labels dos vinis usados no set.