
Você já deve ter ouvido falar do Dub Echoes, documentário encabeçado por dois brazucas de talento. Bruno Natal e Chico Dub batem um papo com o Tranquera sobre esse registro histórico, muito importante para o universo do grave.
Quando surgiu a idéia de fazer esse documentário? Por quê?
Bruno Natal – A idéia foi surgindo ao longo dos anos, de conversas entre eu e o Chico (que foi quem me apresentou o Dub), ouvindo Reggae. Não foi algo pensado. Por volta de 1997, ouvíamos muito Drum’n'bass, estilo muito influenciado pelo Dub. Sempre comentávamos sobre essa proximidade e de como, para a gente, isso era pouco comentado. Com o tempo, começamos a perceber a influência do nosso estilo musical preferido em outros sons.
Em 2004 viajamos para Jamaica, para trabalhar no catálogo de moda que nosso amigo Felipe Continentino iria fotografar. Entrei na equipe para fazer o making of e o Chico era o produtor da viagem. Com a ida confirmada, numa conversa no chat do Soul Seek, falamos que deveríamos aproveitar a ida para tentar entrevistar alguns nomes para um possível documentário que falaria da influência do Dub na música eletrôica e no Hip Hop. O nome do documentário surgiu logo nesse papo e ficou.
Qual o seu papel nesse projeto? E o do Chico? Quem mais participou?
Bruno Natal – Sou o diretor, cinegrafista, produtor do filme, além de ter escrito o roteiro de edição em cima da pesquisa feita pelo Chico. O acúmulo de funções se deve muito mais pela falta de recursos de um projeto independente do que qualquer outra coisa. Após a ida para Jamaica, conseguimos o apoio da American Airlines (que havia apoiado o projeto do catálogo) para o filme. Com isso, foi possível viajar para os EUA e Inglaterra para entrevistar as pessoas que faltavam para contar essa história.
A edição e finalização foi feita na Mellin Videos por Daniel Ferro, Julio Adler e Rafael Mellin, a finalização de áudio no Lontra Music por João Brasil e João Ferraz, o design em movimento foi feito na Brabo pelo Juarez Escosteguy e Adriano D’Aguiar, além do apoio da Dimáquina e do 6D Estúdio, desde o início do projeto. A Urban Image entrou mais tarde, fornecendo as fotos de arquivo. O Digitaldubs Sound System fez a trilha original.
Chico Dub – Bom, minha participação no filme se deu muito mais na concepção, escolha dos entrevistados e suas respectivas pautas – no pré mesmo e durante as filmagens. Tinha desenvolvido uma seleção musical para o filme que no final das contas acabou não acontecendo como planejado por questões burocráticas de direitos autorais. De qualquer maneira, tudo isso fiz junto com o Bruno, que com o grosso do filme já filmado, tocou o resto praticamente sozinho: pré-edição, contatos comerciais, direção do design, inscrição nos festivais, etc. Sem a determinação dele, o filme não sairia nunca. É tanto problema reunido que desistir acaba sendo a opção mais viável no final das contas. Por isso tiro o meu chapéu para ele.
Como o assunto foi dividido ao longo dele? Existe alguma estrutura?
Bruno Natal – O filme tem duas partes, a “Dub” e a “Echoes”. Na primeira é explicada as origens do Dub na Jamaica, da cultura dos sound systems até os experimentos de King Tubby e Lee Perry. Na segunda é mostrado os caminhos que o Dub percorreu pelo mundo, principalmente nos EUA e na Inglaterra, e a influência decisiva que teve e tem na música eletrônia e no Hip Hop. Sempre através de entrevistas com nomes emblemáticos dos períodos e gêneros abordados no filme.
Quem são os artistas que aparecem nele? Algum destaque especial?
Bruno Natal – A lista é enorme, forma mais de 40 entrevistados, de King Jammy a 2ManyDJs, de Roots Manuva a U-Roy. No entanto, a entrevista mais esperada e importante do filme foi a do Lee Perry – e foi a última a ser feita, já em 2007. Como o criador do Dub, King Tubby, está morto, Perry é o principal expoente do Dub ainda vivo. O filme não seria completo sem ele.
Chico Dub – Da Jamaica, que no filme funciona como a primeira parte, entrevistamos lendas como Scientist (que teve que ser cortado da edição final por problemas contratuais), Lee Perry, Sly & Robbie, Bullwackie e outros. Mas sem dúvida a peça fundamental do filme é o Bunny Lee, produtor chave na época e grande incentivador do mestre absoluto do Dub, o finado King Tubby. Ele é um cara bom de entrevista e suas falas conduzem a primeira metade do filme.
Na inglaterra conseguimos entrevistar as figuras mais importantes no desenvolvimento do Dub tipicamente inglês, caras responsáveis pela sobrevivência do mesmo nos anos 80 e que expandiram o gênero para além da cena Reggae tradicional: Mad Professor, Adrian Sherwood e Dennis Vovell (ficou faltando só o Jah Shaka, que não topou). Fora essa galera, entrevistamos Howie B, Audio Bullys, Kode 9, Don Letts, Bill Laswell, LTJ Bukem, Peter Kruder, Thievery Corporation, DJ Spooky e muitos outros.
O Brasil aparece no documentário? Como ele é representado?
Chico Dub – O Brasil aparece representado pelos depoimentos de Marcelo Yuka, Nação Zumbi, Black Alien e do produtor Mario Caldato, que contou umas histórias muito boas sobre os Beastie Boys e Lee Perry que acabaram não entrando no filme. Musicalmente, coube ao Digitaldubs a trilha sonora original, bem presente na primeira metade do filme.
Qual a relação da música brasileira com a cultura musical jamaicana?
Bruno Natal – Para mim, é no Brasil que o Dub tem assumido sua faceta mais importante, que é a de modo de produção, uma postura, não simplesmente um estilo. As bandas daqui utilizam a mentalidade Dub, de criar espaços, atmosferas, utilzar o estúdio como um instrumento e aplicam ao seus sons, sem necessariamente estar fazendo Reggae. Isso é muito rico.
Chico Dub – Pop nacional tem uma ligação forte com a música jamaicana: Paralamas, Titãs, Ultraje A Rigor, Gilberto Gil, O Rappa, Skank, o Samba Reggae baiano, Nação Zumbi.
Já com relação ao Dub, historicamente os primeiros marcos são os os dubs dos Paralamas no disco Selvagem, de 1986 (“Teerã Dub”, “Marujo Dub”), e os d’O Rappa no seu primeiro trabalho, de 1994 (“Sujo Dub”, “Todo Camburão Tem Um Pouco De Navio Negreiro Dub”). Mas o primeiro disco só de dub é Dubs, do Cidade Negra, de 1999, que tem músicas remixadas por alguns grandes nomes do gênero, como Mad Professor e Augustus Pablo.
Qual a relação do Baile Funk carioca com a música popular jamaicana? É possível descrever algum paralelo? A música popular jamaicana também sofre preconceito?
Bruno Natal – Naturalmente, como quase sempre acontece, boa parte da velha guarda não curte. Um dos extras do filme é uma discussão sobre Dancehall, que acabou não entrando no filme.
Chico Dub – Não é só com o Baile Funk, qualquer música de periferia mundial vai se relacionar involuntariamente com a jamaicana. O sound system, o grave explodindo as caixas espalhadas por tudo quanto é canto, cantores
improvisando sobre bases soltadas pelos DJs, a criatividade, a crueza e a informalidade das gravações devido a falta de recursos, a vida à margem da grande mídia e das grandes gravadoras.
Quais gêneros musicais brasileiros foram influenciados pelo Dub? O inverso também ocorreu? Como?
Chico Dub – Não dá para falar em gênero musical brasileiro influenciado pelo Dub. Talvez as produções de Recife, que mesmo sem uma pegada explicitamente Dub usam sempre efeitos, abusam da melódica e tem baixo gordo. É díficil não ouvir algo de Recife que não tenha um ou outro som mais chegado na Jamaica. Nos saudosos shows do Los Sebosos Postizos, projeto da Nação que revisita músicas do Jorge Ben, havia sempre um intervalo Reggae. Antes de começar a tocar um Dennis Brown irado, o Jorge Du Peixe dizia para platéia que quem não gosta de Reggae bom sujeito não é.
Quando o Dub Echoes será exibido por aqui para o grande público? Como ele será lançado? A distribuição será mundial?
Bruno Natal – Estranhamente, mesmo tendo sido exibido em quase vinte festivais pelo mundo (incluindo Sonar Barcelona, Miami Winter Music Conference, Jamaica Reggae Festival, Londres e Amsterdã), por aqui as coisas andaram bem devagar. Houve apenas duas exibições, no festival FILE e na Bienal de São Paulo. Estamos tentando emplacar mais coisas aqui.
O DVD será lançado, ainda esse semestre, pelo selo inglês Soul Jazz Records, com distribuição mundial, menos no Brasil. Ainda estou resolvendo como o filme deve sair aqui no Brasil, mas a idéia é rolar, claro.
Mais alguma coisa?
Bruno Natal – Obrigado!


20.01.09
Bela entrevista… Dub é um dos estilos musicais que mais me agrada…
na minha opinião, um dos poucos que representam a filosofia do estilo do soundsystem jamaicano, pelo menos em sp, são os caras do dubversão sistema de som… uma pena eles terem ficado de fora do documentário (pelo menos não li nenhuma referência a eles nesta entrevista)…
onde eu consigo assistí-lo? fiquei curioso agora
abraços a todos!
27.03.09
Finalmente saiu o DVD pela Soul Jazz!
30.04.09
Que pena que reggae dancehall ficou fora, eu curto muito. Fiquei surpresa e super feliz de saber que estes brasileiros Chico Dub e Bruno Natal estão envolvidos com Dub e fizeram um documentário que deve ser super legal. Ainda não assiti porque infelizmente parece que aqui no Brasil a procura por tal é pouca. Eu até gostaria de achar mais coisas relacionadas e Dub e Reggae dancehall aqui no Brasil pois morava na Califa e me mudei para Florianópolis, sinto falta desta cultura aqui. O que rola em Sampa? Tem clubs que tocam Dub/Reggae dancehall?