
A The Wire, uma das mais importantes publicações sobre música, chegou à sua trecentésima edição em fevereiro passado. Para comemorar esse feito a revista convidou Simon Reynolds, autor de Energy Flash e outros escritos, para falar sobre o Hardcore Continuum – pesquisa desenvolvida pelo próprio jornalista que documenta a continuidade histórica e sonora nas cenas Rave, Jungle e UK Garage.
A celebração acontece de fato através da reedição de sete artigos de Reynolds que surgiram nas páginas da The Wire ao longo dos últimos anos. São eles Hardcore Rave (1992), Ambient Jungle (1994), The State Of Drum’n'bass (1995), Hardstep, Jump Up, Techstep (1996), Neurofunk Drum’n'bass Versus Speed Garage (1997), 2-Step Garage (1999) e Grime And A Little Dubstep (2005).
Para marcar esse episódio a The Wire em conjunto com a FACT (Foundation for Art and Creative Technology) organizou um debate sobre o assunto em Liverpool. O registro do evento pode ser conferido nesse link.
O Hardcore Continuum
Reynolds introduz o tema ao Tranquera dizendo que sua pesquisa não foi concebida como uma série e apenas em 1999 ele se deu conta de que seus textos faziam parte de uma idéia maior, um contínuo musical que emergia da cena Rave britânica na época.
“O termo Hardcore Continuum surgiu numa nota de rodapé do artigo que escrevi sobre 2-Step em 1999. Formulei o conceito porque foi dessa forma que a cena se desenvolveu. É tudo uma coisa só, apenas variando o tema em algums momentos. Muitos junglists norte-americanos não compreendem como o Speed Garage é próximo do Jungle. Tentei explicar como a música pode sofrer mutações drásticas e ainda assim pertencer à mesma cultura sonora”, explica.
Kodwo Eshun e Kode 9
Quando questionado sobre como sua teoria se relaciona com as idéias de Kodwo Eshun e Kode 9, Reynolds deixa claro algumas diferenças teóricas.
“O Kodwo tem uma visão completamente anti-histórica – e anti-social também porque ele rejeita aproximações sociológicas. Ele se interessa pelas rupturas na música e na descontinuidade do som. Também tenho interesse na ruptura, mas principalmente na sua continuidade. Minha aproximação é histórica, calcada no aspecto social e geográfico, uma visão muito mais realista que a do Kodwo, basicamente. Estou interessado na música e nas pessoas. Busco suas histórias e apuro o senso social e demográfico de quem está por trás do som – é importante descobrir seus desejos, intensões e compreender como isso ajudou a desenvolver essa música”, argumenta.
“O Kode 9 tem a idéia de que as influências musicais são como um vírus. É uma visão focada em conceitos como fluxo, mobilidade e nomadismo que sempre privilegiam aspectos de desterritorialização. Mas para mim é óvio que o som é territorial. Está ligado à Londres e outros lugares no Reino Unido que são como Londres. O som não reconhece fronteiras e o Hardcore Continuum absorve influêcias do exterior mas meu interesse é na forma como essa música se alimenta de si mesma. Existe um territorialismo sônico fixo em Londres. É como o Funk Carioca – embora as pessoas possam copiar, o som é feito pela cena local para a cena local”, conclui.
Dubstep, Grime e Funky
Para Reynolds o Dubstep escapa do conceito territorial do Hardcore Continuum.
“O Dubstep é uma ramificação do Hardcore Continuum, muito influenciado por ele e bem consciente de sua história. Como o Drum’n'bass no final da década de 90, esse gênero não é tão ligado à Londres como o Grime e o Funky”, diz.
O Funky que Reynolds se refere é o tipo de música que vai ao ar na programação da Rinse FM, dial pirata muito importante para o desenvolvimento do underground britânico. Esse híbrido derivado do UK Garage mistura sonoridades que vão da Soca caribenha ao Tech House mais sintético.
Martin Clark
O Tranquera também conversou com Martin Clark, produtor e um dos principais jornalistas blogueiros da cena Dubstep. Assumindo o codinome Blackdown nos decks, Martin vai ao ar na Rinse FM com freqüência.
“A teoria dele traz bastante informação. Ela descreve como uma certa parcela da periferia de Londres atua a décadas como combustível e motor das suas próprias inovações sonoras, do Hardcore ao Jungle, do UK Garage ao Grime”, diz.
“Esse conceito consegue explicar seus elementos principais – Hardcore, Jungle, UK Garage e Grime – mas ele não lida muito bem com suas diversas ramificações – Dubstep, Broken Beat e Wonky, por exemplo. Esses gêneros deveriam ser ao menos aceitos como casos limítrofes”, completa.


31.03.11
“O termo Hardcore Continuum surgiu numa nota de rodapé do artigo que escrevi sobre 2-Step em 1999. Formulei o conceito porque foi dessa forma que a cena se desenvolveu. É tudo uma coisa só, apenas variando o tema em algums momentos. Muitos junglists norte-americanos não compreendem como o Speed Garage é próximo do Jungle. Tentei explicar como a música pode sofrer mutações drásticas e ainda assim pertencer à mesma cultura sonora”, aqui ele explicou tudo!