
O RRAURL nasceu com a cena Rave brasileira. Criado em 1997 pelas mãos de Gil Barbara, Camilo Rocha e Gaía Passarelli, o site se mantém na ativa ainda hoje – mesmo com as dificuldades financeiras que atrapalham veículos independentes que buscam liberdade editorial para produzir conteúdo diferenciado.
A crise global também efetou a redação do RRAURL. Isso fez com que a equipe pensasse numa forma mais econômica de trabalho, otimizando custos para viabilizar suas idéias. O Tranquera bateu um papo com a dupla dinâmica que faz o possível e o impossível para manter a chama acesa por lá: com vocês, Jade Gola e Gaía Passarelli. Confira a entrevista com eles.
O que há de mais interessante rolando na cena eletrônica nacional hoje?
Gaía Passarelli – Acho difícíl pensar em termos de “cena eletrônica” porque não sei bem o que isso quer dizer. Cena Techno? House? Festas open air? Clubs? DJs? Tudo isso junto? Pensando mais como música, cultura de pista, acho que as festas menores e menos pretenciosas, independentes, são as mais legais – aí vai desde DJs tocando Dubstep no Vegas à mashups Electro, Pop em casas de Rock.
Jade Gola – Talvez com a crise – e com os inúmeros fiascos de gigs gringas por aqui –, as pessoas têm dado mais atenção aos talentos locais. DJs e produtores brasileiros voltarão a ter o protagonismo que tinham há cerca de 10 anos atrás, quando um DJ estrangeiro não era artigo indispensável num clube.
Como vocês enxergam a mídia especializada em música no Brasil? Qual a situação atual dos veículos que produzem esse tipo de informação no país?
Jade Gola – Fraca. Minguante em termos financeiros e empreendedores. Falo pelo próprio RRAURL, que passa por reestruturação, culpa da escassez de campanhas, incentivadores financeiros e verba. Com a internet social todo mundo quer divulgar conteúdo de graça. As agências de publicidade agora investem mais em “virais” do que em campanhas de fato, já que tudo online parece ter o clima DIY. Com a crise, tudo fica mais preocupante.
Gaía Passarelli – Mídia especilizada é difícil. Fazer revista no Brasil é muita aventura, então até hoje a gente não tem algo essencial – uma publicação em papel com periodicidade, sustentável financeiramente. O que vejo de mais bacana, de novo, são pequenos sites e alguns blogs que atuam de forma mais independente de patrocínios e anunciantes, explorando nichos.
Quais são os critérios que definem as pautas do RRAURL hoje?
Jade Gola – Basicamente, música boa. Música nova que a gente goste ou até mesmo música ruim que a gente não goste mas que tenha interesse jornalístico. Falamos ainda de outros assuntos do “campo sociológico” da cena eletrônica da música alternativa: drogas, movimento LGBT e minorias, roteiro de eventos, etc.
Gaía Passarelli – Estamos em obras! Essa pergunta está sendo feita internamente e não tenho uma resposta. Mas sei exemplificar o que quero para o site: se um produtor vai lançar um novo disco, o que interessa é o disco, não a festa de lançamento do disco. Entende? Por que é assim que a gente consegue se diferenciar de outros tantos sites e manter a liberdade editorial que a gente gosta de ter. O RRAURL não é baseado em pageviews. Gosto da idéia de dar liberdade criativa para quem escreve no RRAURL. Coisas como resenhas de discos, análises de shows, Radar e RRAURL Geek vão de encontro a isso. Acho que o caminho natural é que o site seja menos “roteiro” e mais análise.
Vai rolar uma reestruturação na redação do RRAURL. Quais são essas mudanças? Por que elas vão acontecer? Algum motivo específico?
Gaía Passarelli – Acabamos de fechar o QG do RRAURL. Estamos procurando uma forma de trabalhar que consuma menos dinheiro para poder exercer essa tal liberdade que queremos que o site tenha. A curto prazo isso significa que vamos ter um funcionamento totalmente digital na parte de conteúdo, usando documentos compartilhados online, MSN e email. Ainda não existe fórmula pronta para ganhar dinheiro com site de notícias. A publicidade para internet é confusa e não é a mina de ouro que muita gente pensa. O RRAURL é muito crítico e isso afasta anunciantes que acham, por exemplo, que ao comprar banner no site, a gente vai fazer uma resenha positiva de um festival que foi ruim. Isso é só um exemplo de algo que já aconteceu. Então estamos procurando uma forma de trabalhar que seja financeiramente viável no meio desse grande colapso econômico que vivemos. Se você souber como, me fala?
Como é o dia a dia do RRAURL? Produzir informação e manter uma comunidade virtual no ar são tarefas que demandam o mesmo trabalho?
Jade Gola – Sim, dá muito trabalho e a reestruturação da redação infelizmente vai acarretar em queda na quantidade de conteúdo.
Gaía Passarelli – Tudo dá trabalho: encontrar notícia, publicar, resolver bugs que pintam o tempo todo, responder emails que chegam às centenas, fechar campanhas, etc. A coisa não anda sozinha.
Mais alguma coisa?
Gaía Passarelli – Me paga um café?
Jade Gola – Não desistam nunca!

